por Bernardo Leiros
A disputa pelas terras raras deixou de ser apenas uma questão de mineração. À medida que veículos elétricos, energia eólica, automação, defesa, eletrônicos e outras tecnologias avançam, o controle desses minerais e, principalmente, das etapas de processamento pode se transformar em uma das principais fontes de poder econômico e estratégico das próximas décadas.
Não é possível enxergá-las em um celular, em um carro elétrico ou em uma turbina eólica. Ainda assim, um pequeno conjunto de elementos químicos está presente em algumas das tecnologias que sustentam a economia contemporânea.
As chamadas terras raras reúnem 17 elementos químicos com propriedades magnéticas, ópticas e elétricas particulares. Sua importância não está apenas na existência de reservas minerais, mas na dificuldade de transformar o minério extraído em materiais industriais de alto valor.
É justamente nesse ponto que a disputa internacional se torna mais complexa.
O verdadeiro poder está depois da mina
Uma cadeia de terras raras passa por várias etapas: extração, concentração, separação química, produção de óxidos, refino, fabricação de ligas e produção de ímãs permanentes.
Cada etapa acrescenta valor e exige conhecimento tecnológico específico. A separação química é o núcleo técnico do processamento, antes que os óxidos sejam transformados em metais, ligas e, finalmente, ímãs.
É justamente nas etapas mais sofisticadas que a concentração chinesa se torna decisiva.
Em 2024, a China respondeu por cerca de 60% da produção mundial das principais terras raras utilizadas em ímãs, enquanto sua participação chegou a aproximadamente 91% no refino e 94% na fabricação de ímãs permanentes sinterizados.
A diferença é fundamental: possuir uma jazida não significa controlar o mercado.
Um país pode ter milhões de toneladas de reservas e, ainda assim, depender de outro para transformar aquele recurso em um componente utilizado por sua indústria.
A geopolítica entrou na cadeia de produção
Essa dependência ficou evidente em 2025.
Em abril daquele ano, Pequim impôs controles de exportação sobre sete terras raras pesadas. As restrições provocaram dificuldades de abastecimento em diferentes setores e chegaram a levar algumas montadoras a reduzir o ritmo de produção ou interromper temporariamente operações.
Em outubro, a China anunciou uma nova ampliação dos controles, incluindo cinco elementos adicionais e restrições relacionadas a produtos fabricados fora do país que utilizassem terras raras de origem chinesa ou tecnologias chinesas.
As novas medidas foram posteriormente suspensas por um ano, até novembro de 2026. A suspensão, porém, não eliminou a vulnerabilidade da cadeia internacional.
O impacto potencial ajuda a dimensionar o problema. Caso os controles fossem implementados integralmente, até US$ 6,5 trilhões por ano em produção econômica fora da China poderiam ficar expostos, atingindo especialmente automóveis, eletrônicos, transporte, defesa e energia.
Assim, terras raras passaram a fazer parte de uma disputa muito maior: a disputa pelo controle das cadeias tecnológicas.
A demanda tende a crescer
O cenário para as próximas décadas aponta para uma expansão importante do mercado.
A demanda mundial por terras raras deve passar de 91 mil toneladas em 2024 para 123 mil toneladas em 2030 e 150 mil toneladas em 2040, no cenário de políticas atuais.
A expansão de veículos elétricos, turbinas eólicas e outras aplicações de ímãs permanentes está entre os principais fatores desse crescimento.
A equação é delicada: quanto mais a economia mundial depender de tecnologias avançadas, maior será a importância de garantir acesso seguro aos materiais que permitem fabricá-las.
O Brasil diante de uma oportunidade estratégica
É nesse cenário que o Brasil ganha importância.
O país possui 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo dados da Agência Nacional de Mineração. O volume corresponde a cerca de 13,9% das reservas mundiais, colocando o Brasil atrás apenas da China entre os países considerados naquele levantamento.
Mas a vantagem geológica ainda não se converteu em domínio industrial.
Em 2024, a produção beneficiada brasileira começou a ganhar escala com o início das operações da Serra Verde, em Minaçu, Goiás.
O desafio seguinte é muito maior: desenvolver as etapas de separação, refino e fabricação dos produtos de maior valor agregado.
Especialistas apontam que o país precisa superar gargalos tecnológicos e ambientais para construir uma cadeia nacional competitiva.
O Brasil quer ir além da mineração
Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia iniciou os estudos para a construção da Estratégia Nacional de Terras Raras, com o objetivo de orientar o desenvolvimento da cadeia brasileira e integrá-la às políticas industriais, ambientais, de inovação e de transição energética.
A discussão avançou ao longo do ano.
Em maio, o MME visitou o projeto MagBras, em Minas Gerais, voltado ao desenvolvimento de tecnologia nacional para a fabricação de ímãs permanentes de terras raras. O objetivo é desenvolver no país etapas mais avançadas da cadeia produtiva.
A diferença está justamente aí.
O objetivo não é apenas retirar o minério do solo. É tentar construir uma cadeia que vá da matéria-prima ao produto tecnológico.
O risco de repetir um velho modelo
Para o Brasil, a questão não é simplesmente escolher entre exportar ou industrializar.
O desafio é evitar que uma nova riqueza mineral seja incorporada ao velho modelo de exportação de matéria-prima e importação de produtos de maior valor agregado.
Se o país exportar concentrados e importar ímãs, componentes e tecnologias produzidos a partir deles, terá reservas importantes, mas continuará dependente de fornecedores externos.
Se conseguir avançar para separação, refino, metais, ligas, ímãs e componentes, poderá capturar uma parcela muito maior do valor econômico da cadeia.
Essa diferença pode determinar o papel brasileiro no mercado internacional.
Não são o “novo petróleo”
As terras raras não devem ser tratadas literalmente como o novo petróleo.
O petróleo é uma fonte de energia consumida em volumes gigantescos e possui um mercado muito mais amplo. As terras raras formam um conjunto de elementos diferentes entre si, utilizados em aplicações específicas.
A comparação mais precisa é outra:
elas podem se tornar gargalos estratégicos da economia tecnológica.
Uma pequena quantidade de determinado material pode ser suficiente para fabricar um componente, mas a falta desse componente pode interromper uma cadeia industrial inteira.
É essa característica que transforma minerais relativamente pequenos em importância física em ativos potencialmente enormes em importância econômica.
A disputa que vem pela frente
O futuro das terras raras será determinado menos pela quantidade de minério existente no planeta e mais pela capacidade de cada país de controlar, diversificar e proteger sua cadeia de suprimentos.
A China continuará partindo de uma posição dominante. Estados Unidos, Europa, Japão, Austrália e outros países tentam desenvolver alternativas. O Brasil, por sua vez, possui uma das maiores bases de reservas conhecidas e começa a construir instrumentos para transformar esse potencial em capacidade industrial.
O resultado dessa disputa poderá influenciar setores que vão muito além da mineração: automóveis, energia, eletrônica, robótica, defesa, aeroespacial e infraestrutura tecnológica.
E existe uma data particularmente importante no horizonte: novembro de 2026.
É quando termina a suspensão anunciada pela China para parte das novas restrições de exportação. Até lá, governos e empresas terão de decidir quanto de sua dependência estão dispostos a manter e quanto estão preparados para investir na construção de alternativas.
No caso brasileiro, a pergunta é ainda mais direta:
o país vai se limitar a possuir as terras raras ou conseguirá transformar essas reservas em poder industrial?
Essa talvez seja a questão mais importante de toda a corrida.
Porque, no século XXI, ter o recurso é uma vantagem. Saber transformá-lo em tecnologia é poder.