por Bernardo Leiros
Após a retomada de Cartum pelo Exército e a consolidação da RSF em Darfur, Cordofão torna-se o eixo de uma disputa que ameaça converter a divisão militar do território em fragmentação política permanente
SUDÃO | 13 DE SETEMBRO DE 2026
A guerra iniciada no Sudão em abril de 2023 já não se parece com o conflito que colocou Cartum em chamas.
Naquele momento, a disputa parecia relativamente clara: dois grandes centros armados, duas forças poderosas e uma pergunta aparentemente simples — quem controlaria o Estado sudanês?
Mais de três anos depois, a pergunta mudou.
As Forças Armadas Sudanesas, conhecidas pela sigla inglesa SAF, recuperaram Cartum em março de 2025 e consolidaram posições importantes no norte, no centro e no leste do país. A Força de Apoio Rápido, a RSF, porém, não foi derrotada. O grupo mantém o domínio sobre grande parte de Darfur e conserva capacidade para realizar operações terrestres e ataques com drones.
Entre esses dois espaços de poder está Cordofão.
É justamente nessa região que a guerra entra agora em uma de suas fases mais perigosas. O conflito deixou de ser apenas uma batalha pela capital e se transformou numa disputa territorial capaz de determinar o formato político do Sudão nos próximos anos.
A guerra que nasceu dentro do próprio poder
A origem da crise remonta à queda de Omar al-Bashir, em 2019, após meses de mobilização popular contra uma ditadura que havia governado o país durante três décadas.
A RSF, entretanto, não nasceu naquele momento. Suas raízes estão nas milícias Janjaweed, utilizadas pelo regime de Bashir durante a guerra de Darfur e posteriormente incorporadas à estrutura oficial de segurança do Estado.
Depois da derrubada do ditador, as Forças Armadas e a RSF dividiram o poder com representantes civis durante uma transição política frágil. Em outubro de 2021, o general Abdel Fattah al-Burhan, comandante das Forças Armadas, e Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti e líder da RSF, atuaram juntos no golpe que interrompeu o processo de transição democrática.
A aliança entre os dois começou a ruir quando se tornou inevitável decidir como, quando e sob qual comando a RSF seria incorporada às Forças Armadas regulares. Por trás da discussão institucional havia uma disputa muito mais profunda: quem controlaria o aparato militar e, por consequência, o futuro Estado sudanês.
Em 15 de abril de 2023, as negociações deram lugar ao combate aberto.
Cartum tornou-se uma cidade de guerra e o conflito se espalhou rapidamente pelo país. A disputa entre dois antigos aliados militares destruiu o processo de transição e empurrou para as margens justamente a força que havia iniciado a transformação política: a sociedade civil sudanesa.
Aquilo que começou como uma luta pelo poder converteu-se em uma das maiores crises humanitárias do planeta.
A retomada de Cartum não trouxe o fim da guerra
A recuperação de Cartum pelas Forças Armadas, em março de 2025, foi uma das principais viradas militares do conflito. Mas existe uma diferença fundamental entre retomar a capital e vencer uma guerra.
A RSF continuou existindo, controlando território e mantendo capacidade ofensiva. Grande parte de Darfur permanece sob domínio do grupo, enquanto as Forças Armadas ocupam posições mais sólidas no norte, no centro e no leste. O resultado é um país cuja autoridade política e militar não se distribui de maneira uniforme.
É nesse cenário que Cordofão ganhou importância decisiva.
A região funciona como ligação entre o centro do Sudão e Darfur. Controlá-la significa dominar estradas, linhas de abastecimento, rotas comerciais e caminhos indispensáveis para qualquer avanço militar entre o leste e o oeste do país.
El Obeid, capital do Cordofão do Norte, ocupa uma posição especialmente estratégica. A cidade, controlada pelo Exército, funciona como centro comercial e logístico e abriga aproximadamente meio milhão de habitantes, além de dezenas de milhares de pessoas deslocadas pela guerra. Sua eventual captura pela RSF abriria um corredor entre Darfur e áreas centrais do Sudão.
Por isso, os combates se intensificaram.
Em setembro, confrontos entre forças do Movimento Popular de Libertação do Sudão–Norte, liderado por Abdel Aziz al-Hilu e atualmente alinhado à RSF, e integrantes da comunidade Otoro deixaram pelo menos 21 mortos, incluindo mulheres e crianças, segundo a Sudan Doctors Network.
O episódio, ocorrido nas Montanhas Nuba, no Cordofão do Sul, também mostra que a guerra já não pode ser compreendida exclusivamente como uma disputa entre SAF e RSF. Antigos movimentos rebeldes, forças regionais, comunidades locais e alianças circunstanciais passaram a compor um conflito progressivamente fragmentado.
O campo de batalha também chegou ao céu
Outra transformação ajuda a explicar por que a guerra de 2026 é diferente daquela iniciada em 2023: o uso crescente de drones.
As aeronaves não tripuladas ampliaram o alcance dos ataques e reduziram a distância entre as frentes de combate e as cidades aparentemente afastadas delas. Os drones passaram a atingir posições militares, instalações de energia, sistemas de abastecimento e áreas civis.
Em agosto, a RSF intensificou as operações contra El Obeid, utilizando ataques terrestres e drones. Também houve registros de ofensivas aéreas em Cartum e em outras localidades.
Poucas semanas depois, ataques com drones mataram oito civis no Cordofão do Norte, segundo o grupo Emergency Lawyers. Um segundo ataque teria atingido pessoas que tentavam socorrer as vítimas do primeiro, numa prática especialmente grave por colocar equipes de resgate e moradores deliberadamente em perigo.
A distância deixou de significar segurança. Uma cidade pode estar longe da principal linha de frente e, ainda assim, ter sua infraestrutura destruída ou sua população atingida.
Quando a guerra ganha alcance, o espaço seguro diminui.
Enquanto as forças avançam, o país desmorona
A dimensão mais devastadora do conflito não está apenas nos mapas militares. Está nos hospitais, na água, nos alimentos, na eletricidade e na destruição da vida cotidiana.
O sistema de saúde sudanês foi devastado por mais de três anos de guerra. Cortes recentes no financiamento internacional levaram organizações humanitárias a anunciar o fechamento de 36 unidades de saúde, afetando mais de 473 mil pessoas. Nas áreas diretamente atingidas pelos combates, até 80% das instalações médicas estão fechadas ou funcionam apenas parcialmente.
Isso significa que a guerra mata de duas maneiras. Existe a morte provocada diretamente pelas armas e aquela que chega quando um hospital deixa de funcionar, os medicamentos desaparecem, uma criança não recebe vacina ou uma família perde o acesso à água potável.
No início de 2026, a Organização Mundial da Saúde estimava em 13,6 milhões o número de pessoas deslocadas dentro do Sudão ou refugiadas em outros países, classificando a situação como a maior crise de deslocamento do mundo.
Bases de monitoramento registram ao menos 59 mil mortes relacionadas diretamente ao conflito. O número real, entretanto, pode ser muito superior, porque várias regiões permanecem inacessíveis, o sistema de registros foi destruído e milhares de mortes indiretas, provocadas por fome, doenças e falta de atendimento, não entram nas estatísticas militares.
Não são apenas números. São milhões de pessoas que deixaram suas casas, comunidades desfeitas e um país que perdeu parte de sua capacidade de funcionar.
A fome se tornou uma segunda guerra
A destruição não termina quando os tiros diminuem.
O conflito interrompeu rotas de abastecimento, prejudicou a agricultura, deslocou comunidades inteiras e dificultou o trabalho das organizações humanitárias. Ao mesmo tempo, a redução do financiamento internacional diminuiu a capacidade de atendimento justamente quando as necessidades aumentaram.
A avaliação divulgada em maio de 2026 pelo sistema internacional de monitoramento da insegurança alimentar estimou que aproximadamente 19,5 milhões de sudaneses — cerca de 41% da população — enfrentavam níveis de crise ou piores. Desse total, mais de cinco milhões estavam em situação de emergência e aproximadamente 135 mil em condições classificadas como catastróficas.
O levantamento também identificou 14 áreas de Darfur do Norte, Darfur do Sul e Cordofão do Sul sob risco de fome caso os combates se intensifiquem e o acesso à alimentação, à água e à assistência humanitária sofra novas restrições.
Esses números exigem cautela porque a cobertura territorial dos levantamentos não é uniforme. Existem regiões inacessíveis nas quais não há informações suficientes para uma classificação completa, o que significa que a ausência de dados não representa necessariamente uma situação melhor.
Em 2025, a fome já havia sido oficialmente identificada em El Fasher e Kadugli. Avaliações posteriores também encontraram níveis de desnutrição acima do limiar de fome em outras localidades, ainda que isso não resulte automaticamente numa nova classificação territorial.
A fome, portanto, não constitui apenas uma consequência da guerra. Ela também se transforma num instrumento de pressão quando cercos, bloqueios, ataques à infraestrutura e restrições ao trabalho humanitário impedem a chegada de alimentos às populações civis.
Darfur continua sendo o outro coração da guerra
Se Cordofão representa o principal eixo militar da atual fase, Darfur continua concentrando sua dimensão histórica e humanitária mais sombria.
A região já havia sido devastada pela violência em massa durante o governo de Bashir e voltou ao centro do conflito. A RSF consolidou seu domínio sobre grande parte do território, enquanto denúncias de massacres, violência sexual, perseguições étnicas e ataques contra civis continuam sendo documentadas.
A tomada de El Fasher pela RSF, em outubro de 2025, foi um dos acontecimentos decisivos dessa nova fase. A cidade era o último grande reduto das Forças Armadas e de grupos aliados em Darfur. Sua queda praticamente completou o domínio territorial da organização sobre a região.
A ofensiva foi acompanhada por uma onda de violência que, segundo a Organização das Nações Unidas, pode configurar crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
O que está em jogo não é somente quem controla uma cidade. É a possibilidade de a RSF transformar o domínio militar sobre o oeste do país numa estrutura política própria.
O grupo já participa de uma administração paralela com aliados. Embora não seja reconhecida internacionalmente como governo legítimo do Sudão, essa estrutura demonstra que a divisão territorial começa a produzir instituições concorrentes.
Surge, assim, um dos maiores temores internacionais: o de um Sudão que continue existindo oficialmente como um único país, mas funcione, na prática, sob diferentes centros de poder.
A guerra deixou de ser exclusivamente sudanesa
Outro fator mudou profundamente o conflito: o envolvimento estrangeiro.
Uma investigação da missão internacional independente da ONU identificou redes externas envolvidas no fornecimento de armas, equipamentos, treinamento, operadores especializados e pessoal militar para a RSF. O relatório apontou conexões com indivíduos e organizações dos Emirados Árabes Unidos, do Chade e da Colômbia, entre outros países.
Contratados colombianos teriam participado da operação de equipamentos militares avançados e sistemas de drones. Os Emirados Árabes Unidos negam fornecer apoio militar à RSF, enquanto outros envolvidos também contestam diferentes aspectos das acusações.
A investigação encontrou ainda evidências preliminares de apoio estrangeiro às capacidades de drones das Forças Armadas Sudanesas. Outras apurações e análises internacionais relacionam o Exército sudanês a fornecedores e aliados externos, incluindo Egito, Irã e Turquia.
O apoio não ocorre necessariamente da mesma forma, com a mesma intensidade ou pelo mesmo grau de comprovação nos dois lados. Mas tornou-se evidente que a guerra depende de redes internacionais de abastecimento.
Isso ajuda a explicar como o conflito consegue continuar depois de anos de destruição. As forças perdem homens, equipamentos e posições, mas continuam recebendo os recursos necessários para lutar.
Na sexta-feira, 11 de setembro, o Conselho de Segurança da ONU prorrogou por mais um mês o embargo de armas atualmente limitado a Darfur, enquanto discute uma proposta dos Estados Unidos para estender a proibição a todo o território sudanês. Rússia e China manifestaram resistência à ampliação, alegando preocupações com a soberania do país e os efeitos de uma restrição nacional.
A discussão revela não apenas a dificuldade de impedir o fluxo de armas, mas também as divisões geopolíticas que limitam a ação internacional.
As acusações sobre armas químicas tornam o cenário ainda mais grave
Novas evidências também trouxeram novamente à tona as acusações de desenvolvimento e utilização de armas químicas pelas Forças Armadas Sudanesas.
Documentos analisados por veículos como The Washington Post e The New York Times apontam para a produção e possível utilização de bombas à base de cloro entre 2024 e 2025. O material inclui documentos internos, fotografias, vídeos e comunicações atribuídas a integrantes da estrutura militar.
Parte do cloro supostamente utilizado teria sido originalmente destinada ao tratamento de água. As informações indicam testes, fabricação de artefatos e tentativas de ocultar os vestígios do programa.
Os Estados Unidos já haviam responsabilizado o governo sudanês pelo uso de armas químicas e aplicado sanções, embora não tivessem tornado pública toda a base probatória de sua decisão. As novas evidências ampliam substancialmente o material disponível, mas a verificação independente da extensão do programa e de cada episódio ainda dependeria do acesso aos locais, aos artefatos e às testemunhas.
O governo sudanês e as Forças Armadas negam ter desenvolvido ou utilizado armas químicas.
A cautela jornalística não diminui quando uma acusação é grave. Ela se torna ainda mais necessária.
O Sudão de 2026 já não vive a mesma guerra de 2023
É possível olhar para o país e enxergar apenas mais um ano de um conflito iniciado em abril de 2023.
Seria um erro.
A natureza da guerra mudou. A batalha pela capital deu lugar a uma disputa muito mais ampla pelo território. Darfur consolidou-se como zona de domínio da RSF. Cordofão tornou-se o principal eixo estratégico. Os drones transformaram a distância em algo relativo. Grupos armados regionais ganharam importância, redes internacionais passaram a sustentar a capacidade militar das forças em conflito e a crise humanitária atingiu um nível em que até a capacidade de prestar assistência começa a desaparecer.
O Sudão não está simplesmente repetindo a guerra de 2023. Está entrando numa fase diferente dela.
O verdadeiro perigo talvez esteja no que vem depois
Uma guerra convencional pode terminar quando um dos lados derrota o outro. No Sudão, isso ainda não aconteceu.
As Forças Armadas retomaram a capital, mas não destruíram a RSF. O grupo paramilitar perdeu posições importantes no centro do país, mas mantém o domínio sobre grande parte de Darfur e conserva capacidade ofensiva. Nenhum dos lados conseguiu impor uma solução nacional.
Enquanto isso, o território é reorganizado pela força.
Esse é o ponto em que o conflito se torna especialmente perigoso. Uma coisa é uma guerra que destrói as instituições de um Estado. Outra é uma guerra que começa a criar novas estruturas de poder dentro dele.
O Sudão já viveu guerras civis, divisões territoriais e a separação do Sudão do Sul, em 2011. Por isso, a possibilidade de fragmentação não é inteiramente inédita em sua história. O elemento novo está na possibilidade de a atual divisão militar entre leste e oeste se transformar numa organização política duradoura, sustentada por governos concorrentes, alianças regionais e redes estrangeiras de abastecimento.
Hoje, a pergunta já não é apenas quem vencerá a próxima batalha.
É se o Sudão continuará sendo governado como um único Estado quando essa guerra finalmente terminar.