Direita avança e Centrão encolhe no Congresso
Mas esquerda tem as maiores perdas políticas
Por Jânsen Leiros
Publicado em 05/10/2026 08:54
Reportagem Especial | Link Web

Derrotas de lideranças históricas, avanço da direita no Senado e redução do desempenho de Lula em 25 das 27 unidades da Federação mostram uma mudança política mais profunda do que a simples contagem de cadeiras no Congresso.

As urnas de 2026 redesenharam parte importante do mapa político brasileiro. A direita ampliou sua presença no Congresso Nacional, o chamado Centrão perdeu espaço e a esquerda, embora tenha preservado parcela considerável de sua representação parlamentar, sofreu derrotas cujo peso político é muito maior do que a variação líquida de suas bancadas poderia sugerir.

Essa diferença é essencial para compreender o resultado.

Uma eleição não mede poder apenas pelo número de cadeiras conquistadas. Mede também quem passa a ocupá-las, quem deixa de ocupá-las e qual correlação de forças emerge das urnas.

E, sob esse aspecto, 2026 produziu um recado bastante contundente.


Um Congresso mais à direita

Consideradas Câmara e Senado, a direita ampliou significativamente sua presença no Congresso.

Pela classificação político-ideológica adotada nesta análise, passa de aproximadamente 170 cadeiras em 2022 para 210 em 2026, crescimento de 40 parlamentares.

O centro e o Centrão fazem o movimento inverso: passam de aproximadamente 282 para 245 cadeiras, redução de 37.

A esquerda e a centro-esquerda apresentam variação numérica muito menor: de aproximadamente 142 para 139 cadeiras.

Os números, entretanto, contam apenas a primeira parte da história.

O crescimento da direita é especialmente evidente no Senado.

O PL deverá iniciar a próxima legislatura com 28 dos 81 senadores, tornando-se a maior bancada partidária da Casa no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.

Na Câmara, o partido também avança: terá 121 deputados federais, consolidando-se como a maior força individual da Casa.

O resultado produz uma consequência que vai além da matemática parlamentar. O Centrão continua poderoso e necessário para a formação de maiorias, mas encontra agora uma direita numericamente mais forte e, portanto, potencialmente menos dependente da intermediação permanente do centro.


A esquerda perdeu pouco em cadeiras — e muito em peso político

É aqui que a simples comparação numérica pode enganar.

Se observássemos exclusivamente o saldo de parlamentares, seria possível concluir que a esquerda praticamente preservou seu tamanho. Mas essa fotografia esconderia uma das características mais relevantes da eleição de 2026: a derrota de algumas de suas principais lideranças nacionais.

Randolfe Rodrigues, líder do governo Lula no Congresso e senador desde 2011, não conseguiu renovar seu mandato pelo Amapá.

No Rio de Janeiro, Benedita da Silva, uma das figuras históricas do PT, ficou fora das duas vagas ao Senado. Carlos Portinho e Carlos Jordy, ambos do PL, foram eleitos.

Em São Paulo, duas figuras nacionais ligadas ao governo Lula também foram derrotadas. Simone Tebet e Marina Silva terminaram atrás de Guilherme Derrite e André do Prado na disputa pelas duas cadeiras paulistas no Senado. O resultado ganha relevância adicional porque ambas haviam aparecido competitivas ao longo da campanha.

No Paraná, Gleisi Hoffmann não conseguiu chegar ao Senado.

E a lista não termina aí.

Entre nomes históricos ou de grande projeção do campo governista que buscavam espaço parlamentar, ficaram pelo caminho figuras como José Dirceu, Rui Falcão, Vicentinho, Paulo Teixeira e Paulo Pimenta.

Em Minas Gerais, Patrus Ananias não disputava uma cadeira parlamentar: deixou a Câmara para concorrer ao governo estadual e foi derrotado por Cleitinho. O caso, portanto, não entra na contabilidade das perdas legislativas, mas integra a dimensão política do resultado.

O dado talvez mais expressivo seja outro: dos 22 ex-ministros do terceiro governo Lula que efetivamente disputaram cargos legislativos, apenas nove conseguiram se eleger.

Por isso, dizer simplesmente que a esquerda perdeu poucas cadeiras seria matematicamente possível — e politicamente insuficiente.

Ela preservou parte de sua representação, mas perdeu quadros experientes, lideranças nacionais, capacidade de articulação e personagens com enorme reconhecimento público.




Lula também saiu menor das urnas

O fenômeno não se limita ao Congresso.

A comparação entre os primeiros turnos presidenciais de 2022 e 2026 mostra uma deterioração territorial do desempenho eleitoral de Lula.

Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro.

A vantagem petista era, portanto, de 5,23 pontos percentuais.

Quatro anos depois, Lula recebeu aproximadamente 45,15%, enquanto Flávio Bolsonaro terminou à frente, com cerca de 47%.

Não ocorreu apenas uma troca de posições.

A distância entre os dois campos políticos sofreu uma oscilação de aproximadamente sete pontos percentuais.

E existe um dado ainda mais abrangente: Lula teve desempenho percentual inferior ao de 2022 em 25 das 27 unidades da Federação. As exceções foram Distrito Federal e Amapá — e, neste último, a diferença positiva foi mínima.

Em números absolutos, Lula perdeu aproximadamente 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022, apesar do crescimento do eleitorado brasileiro no período.

Há ainda um componente político particularmente significativo.

Às vésperas da eleição, pesquisas nacionais ainda apresentavam Lula numericamente à frente. Quando as urnas foram abertas, porém, o presidente terminou o primeiro turno atrás do candidato da direita.

Pesquisa não é previsão — mede a intenção de voto no momento em que é realizada —, mas a diferença entre a expectativa construída durante boa parte da campanha e o resultado efetivamente encontrado nas urnas tornou a derrota política ainda mais perceptível.


O Nordeste continua vermelho — mas menos vermelho

O Nordeste permanece sendo o grande reduto eleitoral de Lula.

O presidente voltou a vencer nos nove estados da região.

Mas há uma diferença importante entre vencer e manter a mesma força eleitoral.

A vantagem obtida pelo petista diminuiu em relação a 2022. Mesmo onde continuou majoritário, Lula perdeu participação eleitoral.

Somente na Bahia, a redução representou mais de 200 mil votos. Considerado o conjunto do Nordeste, foram aproximadamente 500 mil votos a menos.

Portanto, o mapa eleitoral aparentemente semelhante ao de quatro anos atrás esconde uma transformação relevante: o Nordeste permaneceu com Lula, mas entregou uma vantagem menor ao petista.


E a direita avançou onde já era forte

O movimento complementar ocorreu em estados nos quais a direita já possuía vantagem.

Em diferentes partes do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, o campo conservador não apenas preservou posições como ampliou diferenças.

No Norte, é necessário fazer uma distinção importante.

Lula ainda venceu Pará, Amazonas e Amapá. Entretanto, sua vantagem foi comprimida, enquanto o campo bolsonarista avançou na região.

Tocantins efetivamente mudou de lado: Lula havia vencido o estado em 2022 e foi derrotado agora.

Acre, Rondônia e Roraima continuaram fortemente associados ao campo da direita.

O resultado é um país que permanece geograficamente polarizado, mas cuja linha divisória se deslocou.


Um recado das urnas — mas ainda não a palavra final

É tentador transformar uma eleição como esta numa sentença definitiva sobre o eleitorado brasileiro. Os números não autorizam tanto.

O segundo turno presidencial ainda será disputado.

Mas também seria um erro minimizar o que aconteceu no primeiro.

A direita sai das urnas maior no Congresso, extraordinariamente fortalecida no Senado e numericamente à frente na disputa presidencial.

O Centrão perdeu espaço parlamentar.

E a esquerda vive uma situação aparentemente contraditória: sua representação legislativa agregada sofreu redução relativamente pequena, mas algumas de suas maiores referências políticas foram derrotadas.

Ao mesmo tempo, Lula chega ao segundo turno com percentual nacional inferior ao de quatro anos atrás e com desempenho menor em praticamente todo o território nacional.

Talvez seja esta a principal mensagem de 2026 até aqui:

a esquerda não desapareceu, o Nordeste não deixou de ser seu principal reduto e o Centrão continua indispensável à governabilidade. Mas a direita avançou sobre o espaço político existente entre esses três campos e chega ao próximo ciclo institucional significativamente mais forte do que estava quatro anos atrás.

E há algo que nenhuma classificação ideológica de partidos consegue esconder.

Quando um presidente candidato à reeleição perde percentual de votos em 25 das 27 unidades da Federação, lideranças históricas de seu campo são derrotadas e a oposição simultaneamente amplia sua presença nas duas Casas do Congresso, existe ali um movimento político nacional.

A dimensão definitiva desse movimento será conhecida no segundo turno.

Mas o primeiro turno já deixou seu recado.

 

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