Quando esta reportagem foi publicada, em 13 de agosto, sua conclusão não era que o planeta estivesse atravessando uma anomalia sísmica.
Era mais prudente que isso.
Os números disponíveis não mostravam uma explosão global da quantidade de grandes terremotos. Mostravam, porém, uma sequência suficientemente impressionante para justificar atenção.
Por isso, terminamos com duas palavras:
Continuar observando.
Pouco mais de dois dias depois, novos acontecimentos deram razões para fazer exatamente isso.
Em 15 de agosto, um terremoto de magnitude 7,7 atingiu a costa leste da Indonésia, próximo à ilha de Flores. Segundo o USGS, o sismo ocorreu a cerca de 10 quilômetros de profundidade, característica particularmente importante porque terremotos rasos tendem a produzir tremores mais intensos na superfície quando outras condições são equivalentes.
A Indonésia registrou novamente aquilo que sua geografia tectônica conhece bem: forte abalo, deslizamentos, danos à infraestrutura, interrupção de comunicações e uma sucessão de réplicas.
O terremoto levou à emissão de alerta de tsunami, posteriormente suspenso.
Até a atualização mais recente das autoridades, pelo menos 47 pessoas haviam morrido, e equipes de resgate ainda enfrentavam dificuldades para alcançar algumas das regiões mais próximas do epicentro. Casas, escolas, unidades de saúde, locais de culto e edifícios públicos foram danificados.
No mesmo dia, a milhares de quilômetros dali, outro terremoto chamou atenção por razões completamente diferentes.
A região metropolitana de Granada, no sul da Espanha, foi atingida por um terremoto de magnitude próxima de 5 durante a madrugada. Houve danos em imóveis e veículos, pessoas precisaram ser retiradas de construções afetadas, mas não foram registradas vítimas. A Alhambra, um dos mais importantes patrimônios históricos da região, não sofreu danos.
Vistos apenas pelas magnitudes, os dois episódios parecem pertencer a universos distintos.
E pertencem.
Mas justamente por isso eles ajudam a responder uma das perguntas centrais desta reportagem.
Magnitude não é sinônimo de impacto.
Um terremoto não se transforma em desastre apenas pelo número que aparece nas manchetes.
Profundidade, distância de áreas densamente habitadas, tipo de solo, qualidade das construções, desenho urbano, preparação institucional e capacidade de resposta alteram profundamente aquilo que acontece depois que a energia acumulada no interior da Terra é liberada.
A comparação entre Indonésia e Espanha torna isso particularmente visível.
Mas 2026 ainda ofereceu, poucos dias antes, um terceiro exemplo — e talvez o mais dramático deles.
A Colômbia acrescenta outra variável
Em 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia.
O USGS estimou sua profundidade em aproximadamente 107 quilômetros, portanto muito superior à do terremoto ocorrido posteriormente na Indonésia. Ainda assim, a dimensão do evento, sua localização continental e as características geológicas da região produziram danos severos em uma área extensa.
Cali, Pereira e outras cidades registraram desabamentos, danos a hospitais, igrejas, escolas, residências e infraestrutura urbana.
Cinco dias depois do terremoto, o balanço oficial já indicava cerca de 290 mortos, 140 desaparecidos e quase 4 mil feridos. Centenas de réplicas continuavam sendo registradas, enquanto equipes de resgate ainda trabalhavam nos escombros.
O caso colombiano é particularmente importante para esta análise porque impede qualquer explicação simplista.
A grande profundidade poderia sugerir, em princípio, menor intensidade dos efeitos na superfície. Mas magnitude, mecanismo de ruptura, localização, geologia regional, densidade populacional e vulnerabilidade das edificações atuam conjuntamente.
Um terremoto é um fenômeno físico.
Um desastre é também um fenômeno urbano, social e institucional.
Essa diferença é fundamental.
Três terremotos. Três histórias.
Em poucos dias, tivemos três episódios capazes de produzir a mesma impressão intuitiva:
a Terra está tremendo demais.
Mas, quando observados cuidadosamente, eles contam histórias bastante diferentes.
Na Indonésia, um terremoto muito forte e raso, em uma das regiões tectonicamente mais ativas do planeta.
Na Espanha, um terremoto muito menor, mas suficientemente próximo da superfície e de áreas urbanas para causar danos materiais e mobilizar serviços de emergência.
Na Colômbia, um terremoto profundo e de grande magnitude que, apesar da profundidade, produziu destruição extensa e uma tragédia humana de grandes proporções.
Agrupar os três apenas sob a palavra “terremoto” elimina justamente aquilo que mais precisamos compreender.
E aqui reaparece uma distinção feita desde o início desta reportagem:
frequência não é concentração. Concentração não é conexão.
O fato de terremotos importantes acontecerem em intervalos temporais próximos não significa, por si só, que um tenha provocado o outro.
Tampouco significa que exista uma mudança global no comportamento tectônico do planeta.
O que essa sequência faz é aumentar a sensação de excepcionalidade.
E essa sensação merece ser examinada — não desprezada.
Os números mudaram. A conclusão, por enquanto, não.
Na versão original desta reportagem, publicada em 13 de agosto, observamos que nove terremotos de magnitude 7 ou superior haviam sido registrados até 17 de julho.
Desde então, outros eventos de grande magnitude passaram a integrar o quadro de 2026.
Isso significa que a fotografia estatística do ano precisa continuar sendo atualizada.
Mas existe uma diferença importante entre atualizar um dado e abandonar uma conclusão científica.
A ocorrência de novos terremotos de grande magnitude pode fazer com que 2026 se aproxime ou eventualmente ultrapasse determinadas médias históricas. Isso, sozinho, não demonstraria uma alteração estrutural na atividade sísmica global.
Médias anuais não funcionam como limites.
Há anos acima delas.
Há anos abaixo.
E fenômenos naturais não obedecem ao calendário de janeiro a dezembro que utilizamos para organizar estatísticas.
O que importa é verificar se existe uma mudança persistente, estatisticamente relevante e geofisicamente explicável no comportamento do planeta.
Até aqui, não há evidência suficiente para afirmar isso.
Mas a sequência recente torna ainda mais necessária uma postura que talvez seja menos atraente do que previsões espetaculares — e certamente mais responsável.
Acompanhar.
Comparar.
Atualizar.
E resistir à tentação de transformar coincidência temporal em causalidade.
Talvez a pergunta tenha ficado ainda melhor
Quando começamos esta investigação, perguntamos:
A Terra está tremendo mais — ou estamos olhando para os terremotos do jeito errado?
Os acontecimentos dos últimos dias não encerram essa pergunta.
Ao contrário.
Eles a tornam mais interessante.
Porque talvez a principal lição de 2026 não esteja apenas na quantidade de terremotos registrados.
Pode estar na forma como os observamos.
Um planeta permanentemente ativo, monitorado em tempo real por redes cada vez mais sofisticadas, acompanhado por bilhões de pessoas conectadas e transformado instantaneamente em imagens, mapas, alertas e notificações produz uma experiência da atividade sísmica muito diferente daquela de décadas atrás.
Hoje sabemos quase imediatamente quando a Terra treme do outro lado do mundo.
Vemos edifícios balançando.
Assistimos aos resgates.
Recebemos a magnitude no celular.
Acompanhamos réplicas quase em tempo real.
A geologia sempre esteve em movimento.
Talvez o que tenha mudado radicalmente seja a velocidade com que nós conseguimos vê-la.
E justamente por isso, diante de cada novo terremoto, a pergunta correta talvez não seja:
“O que está acontecendo com a Terra?”
Mas:
“O que os dados realmente permitem afirmar sobre o que está acontecendo com ela?”
Por enquanto, a resposta continua sendo menos espetacular do que algumas manchetes poderiam sugerir.
Mas também continua exigindo nossa atenção.
A Terra não nos deu uma resposta definitiva.
Deu novos dados.
E nós continuaremos observando.