Brasileiros na guerra da Ucrânia: recrutamento, mortes e desaparecimentos criam novo desafio para o Brasil
1. 127 brasileiros mortos ou desaparecidos
Publicado em 22/08/2026 09:52 • Atualizado 22/08/2026 19:37
Reportagem Especial | Link Web

por Bernardo Leiros


A guerra na Ucrânia ganhou uma dimensão brasileira que já não pode ser tratada como um fenômeno isolado. Brasileiros continuam chegando ao país para servir voluntariamente nas Forças Armadas ucranianas, enquanto famílias no Brasil enfrentam mortes, desaparecimentos e incertezas sobre o destino de seus parentes.

O último balanço oficial disponível do Itamaraty, divulgado em 30 de julho de 2026, registra 127 brasileiros mortos ou desaparecidos desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022. São 35 mortes confirmadas e 92 desaparecimentos.

O número não corresponde à quantidade total de brasileiros que foram para a Ucrânia. O governo brasileiro não dispõe de um cadastro público que permita saber, com precisão, quantos cidadãos já combateram, quantos permanecem no país ou quantos retornaram ao Brasil.

A evolução dos registros, entretanto, chama atenção. Em fevereiro de 2026, eram 22 mortos e 44 desaparecidos, totalizando 66 casos. No balanço mais recente, são 35 mortos e 92 desaparecidos.

Em termos proporcionais, os registros de mortes cresceram cerca de 59%; os desaparecimentos, 109%; e o total de mortos e desaparecidos, aproximadamente 92%.

Há, porém, uma distinção fundamental: os 92 desaparecidos não podem ser contabilizados como mortos. São pessoas cuja situação ainda não foi oficialmente esclarecida.

É justamente essa combinação de mortes confirmadas e desaparecimentos que transformou a presença brasileira na guerra em uma questão cada vez mais relevante para o Estado brasileiro.


2. Como a Ucrânia recruta estrangeiros — e como o brasileiro entra nesse processo

A presença de brasileiros no conflito não ocorre apenas por iniciativa individual. A Ucrânia mantém uma estrutura oficial para o recrutamento de voluntários estrangeiros para suas Forças Armadas.

A principal porta de entrada é a Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia, que mantém um sistema destinado a candidatos estrangeiros. O interessado apresenta seus dados e documentação, passa por avaliações e, se selecionado, pode ser incorporado às Forças Armadas e submetido a treinamento antes de ser designado para uma unidade.

O sistema estabelece requisitos como idade entre 18 e 60 anos, aptidão física e médica e condições legais para ingressar no país. Experiência militar ou de combate é considerada uma vantagem, mas não é apresentada como requisito absoluto.

Um aspecto ganhou importância para os brasileiros: a comunicação de recrutamento também é feita em português.

Canais oficiais ucranianos passaram a publicar conteúdos em português relacionados ao ingresso de estrangeiros e a apresentar informações destinadas a potenciais voluntários.

Isso não significa, necessariamente, que exista uma campanha oficial exclusivamente voltada ao Brasil. O que os fatos permitem afirmar é que a Ucrânia adaptou sua comunicação de recrutamento para alcançar o público lusófono, tornando o processo mais acessível a brasileiros.

Na prática, a distância entre um brasileiro interessado e o sistema de recrutamento ucraniano diminuiu.

Ele pode encontrar informações na própria língua, apresentar uma candidatura pela internet e entrar em contato com a estrutura responsável pelo recrutamento internacional.

É uma diferença importante em relação aos primeiros meses da guerra: o estrangeiro interessado não depende exclusivamente de contatos informais para descobrir como tentar ingressar nas forças ucranianas. Existe hoje uma estrutura institucional para isso.


3. Quando brasileiros passam a ajudar a recrutar brasileiros

A comunicação oficial é apenas uma parte desse processo.

Brasileiros que já passaram pela experiência também podem funcionar como intermediários entre a estrutura ucraniana e novos interessados.

Um dos casos documentados é o de Rafael Ferraz de Toledo, brasileiro que participou da Legião Internacional. Segundo relatos sobre sua experiência, ele encontrou informações sobre o alistamento pelas redes sociais e posteriormente passou a administrar um grupo destinado a orientar brasileiros interessados em seguir o mesmo caminho.

Outro brasileiro, identificado pelo codinome JC, foi apresentado pela própria estrutura da Legião Internacional como voluntário e recrutador.

É importante estabelecer uma diferença: isso não significa que esses brasileiros sejam, necessariamente, funcionários do governo ucraniano. O que pode ser afirmado é que alguns brasileiros que tiveram contato com a estrutura militar passaram a orientar outros brasileiros interessados em ingressar no conflito.

Surge, assim, uma cadeia de comunicação que amplia o alcance do recrutamento:

estrutura oficial ucraniana → comunicação em português → brasileiros já incorporados → novos interessados.

Para quem considera viajar para uma zona de guerra, essa rede tem um peso considerável. Em vez de depender exclusivamente de informações oficiais ou de conteúdo em outros idiomas, o candidato pode conversar com alguém que conhece sua língua, conhece a realidade brasileira e já passou pelo processo.

É justamente essa ponte que torna o recrutamento mais acessível.

4. Dinheiro, ideologia e experiência militar

O recrutamento não envolve apenas convicções políticas ou humanitárias. A remuneração também faz parte da equação.

As informações oficiais da estrutura ucraniana indicam diferentes níveis de pagamento conforme a situação de serviço. Em determinadas condições de emprego em combate, a remuneração pode chegar a aproximadamente US$ 4.800 por mês.

Esse valor não deve ser interpretado como salário fixo ou garantido para todos os estrangeiros. A remuneração depende da função, do contrato, das condições de serviço, dos adicionais previstos e da situação operacional.

Reportagens brasileiras também relataram valores de dezenas de milhares de reais e casos de voluntários que chegaram à Ucrânia com expectativas financeiras que não necessariamente corresponderam ao que receberam posteriormente.

Por isso, o fator financeiro deve ser tratado como um dos elementos de atração, e não como uma promessa universal.

As motivações variam de pessoa para pessoa.

Há brasileiros que afirmam estar na Ucrânia por razões ideológicas ou humanitárias. Outros possuem experiência militar e enxergam no conflito uma oportunidade de atuação profissional e experiência de combate. Há também aqueles para quem a remuneração representa um fator decisivo.

Na maioria dos casos, as motivações não são necessariamente excludentes.

Existe ainda uma estimativa de aproximadamente 2 mil brasileiros envolvidos no conflito, apresentada por fonte especializada. O número, porém, não é uma estatística oficial dos governos brasileiro ou ucraniano e não permite determinar quantos brasileiros estão atualmente combatendo.

Essa ausência de um número confiável é uma das principais limitações para compreender a dimensão real da presença brasileira.


5. Do recrutamento à realidade do front

A promessa de remuneração, treinamento ou experiência militar termina quando o voluntário entra em uma guerra real.

Relatos de brasileiros que estiveram na Ucrânia descrevem uma rotina marcada por drones, artilharia, bombardeios e operações próximas às posições de combate.

O ex-militar brasileiro Carlos Eduardo Cândido, por exemplo, descreveu a exposição permanente ao perigo no front e resumiu sua experiência com uma frase direta:

“O risco de vida aqui é 24 horas por dia.”

O depoimento não representa uma estatística sobre todos os brasileiros, mas ajuda a dimensionar a diferença entre a ideia de uma oportunidade profissional e a realidade de uma guerra de alta intensidade.

Os perfis também são diferentes.

Há voluntários que chegaram com experiência militar anterior e outros que não possuíam experiência profissional de combate e passaram por treinamento antes de serem empregados.

No entanto, treinamento não elimina o risco.

A guerra na Ucrânia é marcada pelo uso intenso de drones, artilharia, ataques de longa distância e operações em áreas onde a localização de tropas pode mudar rapidamente.

Uma vez incorporado às Forças Armadas ucranianas, o estrangeiro deixa de ser apenas um cidadão brasileiro viajando pelo exterior. Ele passa a estar submetido à disciplina, às ordens e às obrigações da estrutura militar à qual aderiu.

É nesse ponto que a decisão individual começa a produzir consequências que ultrapassam o próprio combatente.


6. Mortes, desaparecimentos e o impacto sobre as famílias brasileiras

Dos 127 casos registrados pelo Itamaraty, 92 são classificados como desaparecimentos.

Esse talvez seja o aspecto mais difícil de dimensionar.

Em uma guerra marcada por drones, artilharia e ataques de longa distância, localizar um combatente pode ser extremamente complicado. Um brasileiro desaparecido pode estar morto sem que seu corpo tenha sido localizado, ferido, isolado de sua unidade, sem comunicação, capturado ou em território sob controle adversário.

Por isso, desaparecimento não equivale a morte.

Para as famílias, porém, a diferença estatística não diminui a angústia. Sem confirmação oficial, permanece uma série de possibilidades sobre o destino do combatente.

A confirmação de uma morte ou a localização de um desaparecido pode exigir comunicação entre autoridades de diferentes países, identificação de restos mortais e acompanhamento consular.

A captura acrescenta outra camada de complexidade.

Rússia e Ucrânia adotam posições diferentes em relação ao status de determinados estrangeiros que combatem pela Ucrânia. Em determinadas circunstâncias, autoridades russas classificam combatentes estrangeiros como mercenários, enquanto a Ucrânia os incorpora formalmente às suas Forças Armadas.

Um brasileiro capturado, portanto, pode se transformar em um caso que envolve simultaneamente Brasil, Ucrânia e Rússia.

É nesse ponto que a guerra deixa de ser uma questão distante entre dois países europeus e passa a produzir consequências diretas para famílias e autoridades brasileiras.


7. O problema chegou a Brasília — mas ainda não é uma crise diplomática

A presença de brasileiros na guerra criou uma questão que envolve proteção consular, desaparecimentos, mortes, contratos militares e relações com autoridades estrangeiras.

Isso, porém, não significa que exista uma crise diplomática formal entre Brasil e Ucrânia.

Até 21 de agosto de 2026, não há elementos públicos que indiquem ruptura das relações diplomáticas, retirada de embaixadores ou um confronto institucional entre Brasília e Kiev provocado especificamente pelo recrutamento de brasileiros.

O problema é de outra natureza.

De um lado, a Ucrânia mantém uma estrutura oficial para incorporar voluntários estrangeiros às suas Forças Armadas.

De outro, o governo brasileiro desaconselha seus cidadãos a participar voluntariamente de conflitos armados e de forças militares estrangeiras.

Quando um brasileiro ignora essa recomendação e assina voluntariamente um contrato militar estrangeiro, o Estado brasileiro continua podendo prestar assistência consular, mas dentro dos limites jurídicos e práticos dessa situação.

O governo não passa a controlar o contrato militar do cidadão, nem existe uma obrigação automática de assumir todos os custos relacionados ao seu retorno.

A nacionalidade brasileira, portanto, não elimina as consequências decorrentes da decisão de servir voluntariamente em uma força militar estrangeira.

O resultado é uma situação delicada: Kiev recruta; brasileiros se voluntariam; e Brasília precisa lidar com as consequências quando esses cidadãos morrem, desaparecem, são feridos ou capturados.


8. O que os números revelam — e o que ainda não sabemos

Até 21 de agosto de 2026, o dado oficial mais recente disponível é:

127 brasileiros mortos ou desaparecidos

35 mortos
92 desaparecidos

Esse é o número que pode ser atribuído diretamente aos registros consulares conhecidos pelo Estado brasileiro.

O que não existe é um número oficial confiável de quantos brasileiros já passaram pelas Forças Armadas ucranianas desde 2022, quantos permanecem atualmente no país ou quantos continuam combatendo.

Por isso, seria incorreto afirmar que os 127 casos representam todos os brasileiros que foram para a guerra. Também seria incorreto calcular uma “taxa de mortalidade brasileira” sem conhecer o número total de participantes.

A estimativa de cerca de 2 mil brasileiros envolvidos deve continuar sendo tratada apenas como estimativa, e não como dado oficial.

O que já pode ser estabelecido com segurança é outra coisa.

A participação brasileira existe.

A Ucrânia mantém uma estrutura institucional para recrutar estrangeiros.

A comunicação desse recrutamento alcança brasileiros em português.

Brasileiros que já passaram pelo processo podem atuar como fontes de orientação para novos interessados.

E o Estado brasileiro já registra dezenas de mortes e dezenas de desaparecimentos relacionados ao conflito.

O fenômeno, portanto, ultrapassou a decisão individual de quem escolhe viajar para uma guerra.

Para a Ucrânia, os voluntários estrangeiros representam uma forma de ampliar seu contingente militar.

Para os brasileiros que partem, a decisão pode envolver ideologia, convicções pessoais, experiência militar ou dinheiro.

Para as famílias, pode significar meses de espera por uma confirmação.

E para Brasília, significa acompanhar uma situação que reúne recrutamento internacional, mortes, desaparecimentos, captura de cidadãos, assistência consular e relações diplomáticas.

Não há, até o momento, uma crise diplomática aberta entre Brasil e Ucrânia.

Mas existe um problema consular, jurídico e diplomático concreto, provocado por uma guerra que acontece a milhares de quilômetros do Brasil e que, cada vez mais, produz consequências dentro das famílias e das instituições brasileiras.

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