OS EXCLUÍDOS DO PROGRESSO
por Marcelo Duarte Lins
Dizem que vivemos na era da inclusão.
Nunca se falou tanto em acessibilidade, conectividade e inovação. Nunca se produziram tantos instrumentos para aproximar pessoas. E, paradoxalmente, nunca houve tantos excluídos.
Vivemos o tempo do descartável.
Descartam-se objetos, roupas, aparelhos, ideias. E, aos poucos, começamos a descartar também pessoas.
Primeiro foram os produtos, feitos para durar pouco. Depois, as relações, cada vez mais breves. Agora, parece ser a vez dos seres humanos. Quem não acompanha a velocidade das mudanças é empurrado para a margem, como se tivesse perdido o prazo de validade.
Há uma nova forma de analfabetismo. Não é a incapacidade de ler um livro ou escrever uma carta. É a incapacidade de dialogar com um aplicativo.
Um homem que construiu estradas, criou filhos, dirigiu empresas, ensinou gerações ou dedicou quarenta anos ao mesmo trabalho pode, de repente, tornar-se dependente de alguém para pagar uma conta, marcar uma consulta ou provar que continua vivo diante de uma tela.
Não lhe falta inteligência. Falta-lhe um tradutor para um mundo que resolveu mudar de idioma sem avisar.
Chamam isso de modernidade.
O progresso que humilha não é progresso. Tecnologia que exclui deixa de ser ferramenta para se tornar barreira. A inovação perde sua grandeza quando exige que o ser humano se adapte a ela, em vez de adaptar-se ao ser humano.
O mais inquietante é que essa exclusão não atinge apenas os idosos.
Ela alcança quem perdeu o emprego para um algoritmo, quem não consegue acompanhar a avalanche de mudanças, quem não domina a linguagem digital, quem não cabe nos padrões de produtividade, quem envelheceu, quem desacelerou, quem simplesmente continua humano em um mundo que exige funcionamento de máquina.
Vivemos sob a lógica da atualização permanente. Tudo precisa ser substituído.
O celular, o computador, o programa, a senha. Sem perceber, passamos a aplicar a mesma lógica às pessoas.
Esquecemo-nos de que seres humanos não têm prazo de validade.
Uma sociedade revela seu verdadeiro grau de civilização não pela velocidade de sua internet nem pela inteligência de seus computadores, mas pela forma como trata aqueles que caminham mais devagar.
O futuro será realmente admirável quando ninguém precisar pedir licença para continuar pertencendo ao seu próprio tempo.
Enquanto isso não acontece, seguimos produzindo uma triste categoria de cidadãos: os excluídos do progresso.
Está é a maior ironia; pois nunca estivemos tão conectados pelas máquinas e tão desconectados das pessoas.