Por Marcelo Duarte Lins
Há despesas que aparecem no orçamento e há custos que só se revelam quando já é tarde demais.
Uma ponte sem manutenção revela seu preço quando desaba. Um reservatório esquecido demonstra sua importância em tempos de seca. Com a defesa nacional acontece algo semelhante: quase sempre ela é percebida pelo que custa, raramente pelo que evita.
Talvez porque a segurança seja uma daquelas presenças silenciosas. Quando existe, passa despercebida. Quando falta, torna-se impossível ignorá-la.
Vivemos um tempo em que as nações disputam muito mais do que territórios. Disputam tecnologia, conhecimento, capacidade industrial e autonomia de decisão. Os conflitos recentes demonstram que não basta possuir soldados ou equipamentos adquiridos no exterior. É preciso dominar o conhecimento que permite produzi-los, mantê-los e aperfeiçoá-los.
Nesse cenário, uma indústria de defesa não fabrica apenas aviões, navios ou sistemas de monitoramento. Fabrica engenheiros, pesquisadores, inovação e independência. Cada laboratório criado, cada tecnologia desenvolvida e cada profissional qualificado representa uma peça a mais na construção da soberania.
Muitas das ferramentas que hoje utilizamos diariamente nasceram em projetos ligados à defesa e à pesquisa estratégica. O progresso raramente caminha sozinho. Ele costuma surgir quando uma sociedade decide investir em capacidades que parecem caras no presente, mas que se tornam indispensáveis no futuro.
O erro mais comum é olhar apenas para a conta do investimento. O olhar mais atento procura enxergar a conta da dependência. Quanto custa não possuir tecnologia própria? Quanto custa depender da vontade de outros países para proteger interesses nacionais? Quanto custa reconstruir, em poucos anos, aquilo que levou décadas para ser desenvolvido?
Capacidades estratégicas são como árvores antigas. Crescem devagar, exigem cuidado constante e oferecem sombra por gerações. Mas podem ser derrubadas rapidamente pela negligência.
Por isso, a discussão talvez não deva se concentrar apenas no valor investido para preservar uma base industrial de defesa. A questão mais importante é outra.
Algumas ausências custam muito mais do que certas presenças.
A soberania é uma delas.
Porque o custo de não estar preparado e o preço da dependência acabam sempre chegando.
E, quando chegam, a conta costuma ser muito mais alta.