Por Marcelo Duarte Lins
Há cidades que possuem duas geografias.
A primeira é a dos mapas. Aquela desenhada pelos engenheiros, registrada nos cartórios e ensinada nas escolas. É a cidade das avenidas, das praças, dos bairros e dos monumentos. Do cartão postal e dos filmes promocionais bem editados.
A segunda não aparece em nenhum atlas.
É uma geografia invisível.
Feita de medos.
Feita de estatísticas.
Feita de silêncios.
Feita de percepções.
Feita de fronteiras que ninguém ousa atravessar.
Quem vive nessas cidades sabe reconhecê-la. Não porque a tenha estudado, mas porque a sente.
Ela está no comerciante que fecha as portas mais cedo.
Na mãe que apressa o passo ao cair da noite.
No motorista que evita determinadas ruas.
No olhar de quem aprendeu a distinguir o estampido de um escapamento do som de um disparo.
A cidade invisível não é governada por prefeitos nem administrada por secretarias.
Ela é habitada por sombras.
Sombras armadas.
Sombras que surgem onde o Estado enfraquece e permanecem onde a esperança se cansa.
Elas não pedem votos.
Não fazem campanhas.
Não prestam contas.
Mas impõem regras.
Reside aí a mais inquietante das contradições que é a força que não possui legitimidade, muitas vezes consegue impor obediência mais rapidamente do que a autoridade que tem a lei ao seu lado.
A história humana está repleta desses momentos.
Quando o poder legítimo se distancia das ruas, outros poderes ocupam o espaço vazio.
A natureza, afinal, detesta o vazio.
E a sociedade também.
Por isso, os chamados atores armados não estatais não nascem apenas das armas que carregam.
Nascem das ausências.
Das oportunidades abandonadas.
Das instituições enfraquecidas.
Dos lugares onde o cidadão deixa de enxergar a mão protetora do Estado e passa a enxergar apenas a própria vulnerabilidade.
Mas seria um erro imaginar que a tragédia se resume às estatísticas da violência.
Os números contam mortos.
Não contam os sonhos interrompidos.
Não contam as crianças que cresceram acreditando que a presença de homens armados com fuzis faz parte natural da paisagem.
Não contam os idosos que aprenderam a viver atrás de grades.
Nem os jovens que passaram a confundir respeito com medo.
A verdadeira ferida é mais profunda.
Ela atinge a alma coletiva.
Corrói, lentamente, a confiança que mantém uma sociedade unida.
Porque toda civilização repousa sobre um pacto invisível: a crença de que a lei vale mais do que a força.
Quando essa crença enfraquece, algo se rompe. E aquilo que se rompe não aparece nos relatórios.
Aparece nos olhares.
Nas portas fechadas.
Nas janelas silenciosas.
Nas ruas vazias.
Talvez seja por isso que o enfrentamento à criminalidade organizada não seja apenas uma questão policial ou jurídica.
É, antes de tudo, uma questão humana.
Uma tentativa de devolver à cidade aquilo que lhe pertence: a tranquilidade das esquinas, o riso das crianças, a liberdade de caminhar sem receio, o direito de ocupar os espaços sem pedir licença ao medo.
No fundo falta vontade política. Toda sociedade trava uma batalha permanente entre a luz e a sombra.
A luz constrói.
A sombra ocupa.
A luz aproxima.
A sombra intimida.
A luz nasce da confiança.
A sombra cresce na ausência dela.
E, enquanto houver homens e mulheres dispostos a defender a lei, a liberdade e a dignidade humana, permanecerá viva a esperança de que as cidades invisíveis voltem, um dia, a desaparecer.
Então as ruas deixarão de pertencer ao medo. E voltarão a pertencer às pessoas.