por Fernanda Loureiro
Há alguns pontos cegos que só começam a aparecer quando já acumulamos muitos anos de estrada. E talvez more aí uma das maiores armadilhas da experiência: justamente por termos aprendido tanto, fica mais difícil perceber aquilo que deixamos de enxergar.
Quem tem quilometragem raramente escorrega no básico. O risco costuma estar em outro lugar. Muitas vezes, tropeçamos naquilo que construímos ao longo do tempo: processos bem ajustados, respostas rápidas, modelos mentais eficientes, formas de decidir que já funcionaram muitas vezes e, por isso mesmo, passam a operar quase no automático.
Em ambientes estáveis, isso pode ser uma vantagem. A experiência encurta caminhos, organiza repertório e permite reconhecer padrões com mais velocidade. Mas, em contextos complexos, aquilo que sempre deu certo pode começar a limitar o próximo passo.
Com o tempo, quem acumulou muitas horas de voo desenvolve seu próprio modo funcional de resolver problemas. São atalhos mentais, formas de leitura e respostas quase intuitivas que já salvaram projetos, decisões e relações em muitos momentos. O problema é que esses mesmos atalhos podem nos tornar muito bons para resolver problemas antigos, mas menos disponíveis para compreender problemas novos.
É um paradoxo importante: aquilo que nos trouxe até aqui pode, em determinado momento, reduzir nossa capacidade de ler a realidade que está surgindo agora.
Pontos cegos não costumam aparecer como falhas óbvias. Pelo contrário. Eles se disfarçam de competência, segurança, controle e até visão estratégica. Estão nas decisões que saem rápido demais, nas conversas que parecem resolvidas antes de começarem, nos conflitos que julgamos compreender antes de escutar com atenção, nas certezas que chegam antes das perguntas.
E justamente por terem sido construídos sobre vitórias reais, esses padrões raramente são questionados. Afinal, se funcionaram tantas vezes, por que desconfiar deles?
Mas o mundo muda. As relações mudam. A cultura muda. As formas de trabalhar, liderar, comunicar e decidir também mudam. Enquanto isso, muitos dos nossos padrões internos continuam fiéis ao ambiente em que foram formados. É assim que pessoas muito competentes podem começar a perder nuances, ignorar sinais importantes e subestimar tensões que já não se comportam como antes.
Não necessariamente por arrogância. Muitas vezes, apenas por hábito.
A experiência, quando não é revisitada, pode deixar de ser repertório e se transformar em filtro rígido. Em vez de ampliar a leitura, passa a selecionar apenas aquilo que confirma o que já sabemos. Em vez de sustentar presença, antecipa respostas. Em vez de abrir escuta, protege certezas.
Reconhecer pontos cegos não diminui a autoridade de ninguém. Ao contrário, amplia. Porque maturidade não está em saber tudo, mas em continuar disponível para perceber o que mudou, mesmo depois de ter acertado muitas vezes.
Os melhores líderes que conheço não são aqueles que se apoiam apenas no que já provaram. São os que continuam curiosos, atentos e dispostos a atualizar o próprio modo de olhar.
A experiência é uma força poderosa.
Mas só permanece viva quando não deixa de aprender.
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