Desaparecer: a tragédia silenciosa que cresce diante de nós
Por Jânsen Leiros
Publicado em 24/02/2026 18:04
Opinião – OurView

Há uma estatística que cresce no mundo inteiro — e cresce quase em silêncio: o número de pessoas desaparecidas.

Em diferentes continentes, as causas variam. Conflitos armados deslocam populações inteiras. Redes de tráfico humano sequestram vidas invisíveis. Migrações irregulares transformam travessias em desaparecimentos definitivos. Catástrofes naturais engolem nomes que nunca mais serão pronunciados oficialmente. Em muitos países, crianças e adolescentes figuram como o grupo mais vulnerável, expostos à exploração, à violência e ao abandono.

Mas há algo ainda mais perturbador do que o número em si: a naturalização do fenômeno.

O desaparecimento, que deveria causar comoção coletiva, passou a ser tratado como ocorrência administrativa.

Quando descemos um degrau e olhamos para o Brasil, o cenário não é menos grave. Todos os anos, dezenas de milhares de brasileiros entram para a estatística dos desaparecidos. Alguns retornam. Muitos não. E há aqueles cuja ausência jamais encontra explicação.

Os casos são diversos. Há desaparecimentos ligados a conflitos familiares, violência doméstica, envolvimento com facções criminosas, exploração sexual, dependência química, transtornos mentais não tratados e vulnerabilidade social extrema. Há também desaparecimentos voluntários — pessoas que rompem com tudo e partem. Mas há, sobretudo, os desaparecimentos forçados e criminosos, que expõem uma face sombria da sociedade.

O problema não está apenas no fato de pessoas desaparecerem. O problema está no que acontece depois.

Falta integração nacional de bancos de dados. Falta padronização de procedimentos. Falta comunicação entre estados. Faltam recursos humanos especializados. Muitas investigações esfriam após os primeiros dias. Famílias transformam-se em investigadoras solitárias, percorrendo delegacias, hospitais, necrotérios e redes sociais com cartazes improvisados e esperança dilacerada.

O drama não termina no desaparecimento. Ele começa na indiferença.

Uma sociedade que não procura seus desaparecidos com vigor envia uma mensagem silenciosa: algumas vidas são descartáveis. E quando vidas se tornam descartáveis, a civilização já começou a ceder.

Não se trata apenas de segurança pública. Trata-se de valor humano. Trata-se de prioridade institucional. Trata-se de perguntar se ainda somos capazes de nos mobilizar diante da ausência de alguém que não voltou para casa.

Cada desaparecido é uma história interrompida. Uma mesa com cadeira vazia. Uma mãe que não dorme. Um pai que não encerra o luto porque não há corpo, não há resposta, não há verdade.

O crescimento dos desaparecimentos no mundo e no Brasil é um sintoma. Sintoma de desestruturação social. Sintoma de fragilidade institucional. Sintoma de uma era em que a velocidade da informação convive com a lentidão da responsabilidade.

Desaparecer não pode ser normal.

 

Porque quando o desaparecimento se torna estatística, a humanidade começa a desaparecer junto.

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