O aluno está na escola. Mas a escola está nele?
O Brasil universalizou o acesso, melhorou o fluxo e ainda não conseguiu transformar permanência em aprendizagem.
Por Jânsen Leiros
Publicado em 11/09/2026 23:00
Educação

O Brasil universalizou o acesso, melhorou o fluxo e ainda não conseguiu transformar permanência em aprendizagem.

Um vídeo de rua faz uma pergunta aparentemente simples: quais são os quatro pontos cardeais?

As respostas erradas produzem primeiro o riso. Norte, sul, leste e oeste desaparecem em meio a tentativas, silêncios e confusões. Até que uma estudante, ainda uniformizada, responde citando órgãos do corpo humano.

A cena é engraçada. Mas a graça dura pouco.

Quando ela explica que ainda está na escola, o vídeo deixa de expor apenas o desconhecimento de uma pessoa e passa a provocar uma pergunta muito maior: como alguém pode permanecer durante anos dentro de uma sala de aula sem conservar conhecimentos considerados elementares?

É preciso fazer uma ressalva importante. Entrevistas de rua não constituem pesquisa. Não sabemos quantas pessoas acertaram e ficaram fora da edição, quanto a presença da câmera interferiu nas respostas ou se os erros foram selecionados justamente porque tornavam o vídeo mais divertido e compartilhável.

O vídeo não mede a educação brasileira.

Mas toca numa ferida que os indicadores oficiais conhecem bem.

O acesso avançou. A aprendizagem, muito menos.

O Brasil realizou uma transformação educacional imensa nas últimas décadas. Milhões de crianças que antes sequer entravam na escola passaram a ser matriculadas. A permanência aumentou, a repetência diminuiu e uma parcela muito maior da população chegou aos anos finais do ensino fundamental e ao ensino médio.

Essa mudança precisa ser reconhecida como uma conquista histórica. A escola brasileira do passado, muitas vezes lembrada como mais rigorosa e eficiente, também era profundamente seletiva. Formava muito bem alguns porque deixava muitos outros pelo caminho — ou nem sequer permitia que entrassem.

Por isso, dizer simplesmente que “a escola pública era melhor” exige uma pergunta complementar:

Melhor para quem?

Havia escolas públicas excelentes, especialmente nos grandes centros urbanos, frequentadas por parcelas mais favorecidas da população. Mas elas não representavam uma educação universal. Exames de admissão, repetência, abandono, pobreza e necessidade de trabalhar afastavam milhões de crianças e jovens do sistema.

A escola atual recebe uma população muito maior, mais diversa e socialmente desigual. O problema não foi tê-la aberto para todos. O problema foi não ter criado, na mesma velocidade, as condições necessárias para ensinar bem a todos.

A exclusão mudou de lugar.

Antes, muitas crianças permaneciam fora da escola. Hoje, boa parte delas entra, passa de ano e, ainda assim, não recebe integralmente aquilo que a matrícula deveria garantir: aprendizagem.

Melhoramos — mas continuamos muito distantes

Os resultados mais recentes do PISA ajudam a dimensionar essa contradição. A avaliação internacional verifica se estudantes de 15 anos conseguem utilizar conhecimentos de leitura, matemática e ciências em situações concretas. Portanto, não se trata de decorar informações, mas de compreender, interpretar e resolver problemas.

Em 2025, o Brasil alcançou 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Na comparação com 2006, aparece entre os países que mais avançaram nos três campos avaliados.

É uma boa notícia — mas não a notícia inteira.

Mesmo após esse avanço, o Brasil permaneceu 58 pontos abaixo da média dos países da OCDE em leitura, 92 pontos atrás em matemática e 77 pontos abaixo em ciências.

Os dois fatos são verdadeiros ao mesmo tempo: o país melhorou e continua muito distante de oferecer uma aprendizagem adequada à maior parte de seus estudantes.

Isso impede tanto o discurso do desastre absoluto quanto a celebração fácil. A educação brasileira não está em queda contínua, como às vezes parece. Também não vive uma recuperação capaz de justificar tranquilidade. O que os dados mostram é uma combinação de progresso lento, longos períodos de estagnação e resultados ainda insuficientes.

O Ideb confirma parte desse movimento. Desde 2005, o índice melhorou nas três principais etapas da educação básica. Em 2025, o Brasil chegou a 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental, 5,3 nos anos finais e 4,5 no ensino médio.

O problema aparece na própria sequência: quanto mais o estudante avança, menor é o resultado.

Isso significa que a fragilidade não está apenas no ingresso na escola. Ela se acumula ao longo dos anos. Dificuldades de alfabetização não resolvidas no início reaparecem na interpretação de textos, na matemática, nas ciências e, mais tarde, em praticamente todas as áreas da vida.

O estudante progride formalmente, mas carrega lacunas que crescem com ele.

Pública e privada: uma diferença real, mas não simples

Também é verdadeiro que, na média, estudantes da rede privada alcançam resultados superiores aos da rede pública.

No PISA 2018, 57% dos alunos das escolas públicas brasileiras estavam abaixo do nível básico de leitura. Na rede privada, esse percentual era de 13%. A diferença bruta de desempenho entre as duas redes chegava a 113 pontos.

Mas esses números precisam ser compreendidos dentro da realidade social brasileira.

A escola privada reúne, em média, estudantes de famílias com maior renda, pais mais escolarizados, acesso mais amplo a livros, internet, equipamentos, espaço para estudar e condições para contratar reforço quando necessário. Ela também possui mais liberdade para selecionar seu público e desligar estudantes que não se ajustam ao seu modelo.

Quando a OCDE considera as diferenças socioeconômicas, a vantagem da rede privada cai de 113 para 32 pontos.

Cai muito, mas não desaparece.

Isso significa que a desigualdade familiar explica boa parte da distância, porém não explica tudo. A escola frequentada ainda faz diferença. Recursos, gestão, continuidade das aulas, condições de trabalho dos professores, acompanhamento individual e ambiente escolar também influenciam o resultado.

Não é correto, portanto, afirmar que a escola privada se destaca exclusivamente por mérito próprio. Tampouco seria correto dizer que ela só parece melhor porque recebe alunos mais ricos.

As duas coisas atuam juntas.

E nem a rede pública nem a privada constituem blocos uniformes. Existem escolas públicas de excelência, institutos federais disputadíssimos, escolas privadas populares com enormes dificuldades e colégios particulares de elite com estrutura comparável à de países desenvolvidos.

O grande fracasso brasileiro não está simplesmente na existência de uma escola pública ruim e de uma escola privada boa. Está em permitir que a qualidade da educação de uma criança continue sendo determinada, em grande medida, pela renda da família e pelo CEP onde ela nasceu.

A pergunta que o vídeo realmente faz

Talvez os jovens entrevistados tenham esquecido os pontos cardeais. Talvez tenham travado diante da câmera. Talvez nunca tenham compreendido o conteúdo, embora o tenham copiado no caderno e repetido numa prova.

O vídeo não permite saber.

Os dados, porém, mostram que milhões de estudantes chegam aos 15 anos sem conseguir utilizar com segurança conhecimentos básicos adquiridos — ou que deveriam ter sido adquiridos — ao longo da vida escolar.

Esse problema não será resolvido pela simples volta a uma escola supostamente gloriosa do passado, porque aquela escola nunca foi oferecida a todos. Também não será resolvido apenas aumentando matrículas, distribuindo equipamentos ou aprovando estudantes.

A educação precisa garantir acesso, permanência e aprendizagem.

Isso envolve alfabetização na idade certa, currículo coerente, formação e valorização dos professores, direção escolar qualificada, recuperação contínua, avaliação diagnóstica e condições para que o estudante aprenda. Exige também continuidade, porque educação não melhora no intervalo de um mandato nem sobrevive à troca permanente de programas e prioridades.

A frase mais inquietante do vídeo talvez não seja nenhuma das respostas erradas.

É a justificativa da estudante:

“Eu ainda estou na escola.”

Nela está condensado o paradoxo brasileiro. A matrícula chegou. A permanência avançou. Os indicadores melhoraram. Mas o conhecimento ainda não se transformou num direito efetivamente distribuído.

A questão, portanto, não é quantas pessoas podem ser constrangidas por uma pergunta diante de uma câmera.

É quantas crianças podem passar uma década dentro da escola e sair dela sem instrumentos suficientes para compreender o mundo.

Porque um país não fracassa quando alguém esquece onde fica o norte.

Fracassa quando o próprio sistema deixa milhões de pessoas sem direção.

 

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