
A família Batista, controladora do grupo J&F, fechou acordo para comprar a Avibras Aeroco, uma das empresas mais estratégicas da indústria brasileira de defesa. A operação será realizada por meio da Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista, e envolve a aquisição da totalidade das ações da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco. O valor do negócio não foi divulgado e a transação ainda depende da aprovação do Cade.
A Avibras é conhecida principalmente pelo desenvolvimento do Sistema ASTROS, uma das soluções militares brasileiras de maior reconhecimento internacional, além de mísseis, foguetes, veículos especiais e tecnologias voltadas ao setor aeroespacial e à defesa nacional. A empresa, fundada em 1961 por engenheiros do ITA, atravessou uma longa crise financeira, entrou em recuperação judicial em 2022 e ficou cerca de três anos com suas atividades paralisadas após greve de funcionários por falta de pagamento.
Segundo a Globe Investimentos, a compra tem como objetivo dar sustentação à retomada das operações da Avibras, preservar sua capacidade tecnológica e industrial e criar condições para que a companhia volte a crescer nos mercados brasileiro e internacional. A empresa afirma ainda que a operação preserva o controle nacional de uma companhia considerada estratégica para a defesa do país.
A entrada dos irmãos Batista no setor de defesa ocorre em meio à recuperação operacional da Avibras. Em 2026, a companhia voltou a operar após captar cerca de R$ 300 milhões com investidores brasileiros, entre eles Joesley Batista. Também foi firmado acordo para pagamento de aproximadamente R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas acumuladas desde 2022.
No Cade, os compradores sustentam que a operação não teria impacto concorrencial relevante, já que não haveria sobreposição horizontal nem integração vertical entre as atividades da Globe/J&F e os mercados de defesa e aeroespacial. Por isso, pediram que a análise seja feita em rito sumário, procedimento mais simples e rápido.
A compra, porém, tende a abrir um debate mais amplo. Não se trata apenas da aquisição de uma empresa em recuperação judicial. A Avibras atua em uma área sensível, ligada à soberania, à tecnologia militar, à segurança nacional e à capacidade industrial estratégica do Brasil. Por isso, a transação deve ser observada não apenas sob a ótica financeira, mas também sob a ótica institucional e geopolítica.
Principais repercussões de mercado
A primeira repercussão é a entrada da família Batista em um setor altamente estratégico. Depois de presença em áreas como alimentos, energia, celulose, finanças e petróleo, a aquisição da Avibras leva o grupo ligado aos irmãos Batista para a indústria de defesa, segmento com forte dependência de contratos públicos, exportações reguladas e relacionamento com governos.
A segunda é a possível reestruturação de uma companhia com tecnologia rara no Brasil. Para o mercado, a Avibras combina crise financeira com ativo estratégico. Ou seja: é uma empresa fragilizada do ponto de vista econômico, mas valiosa do ponto de vista tecnológico, industrial e militar.
A terceira repercussão envolve liquidez, crédito e confiança operacional. Se a compra for aprovada e a reestruturação avançar, a Avibras pode recuperar capacidade de produção, voltar a disputar contratos e reabrir espaço em mercados internacionais onde já teve clientes, como Arábia Saudita, Catar, Indonésia e Malásia.
A quarta é o escrutínio regulatório e político. Mesmo que o Cade analise a operação pelo aspecto concorrencial, o debate público deve ir além da concorrência. Defesa nacional não é um setor comum. A concentração de ativos estratégicos em grupos privados de grande influência econômica tende a provocar questionamentos sobre governança, soberania, transparência e relação entre poder econômico e poder político.
A quinta repercussão é simbólica: o negócio sinaliza que a indústria brasileira de defesa voltou ao radar de grandes investidores nacionais. Para alguns, isso pode representar uma chance de salvar uma empresa estratégica. Para outros, acende um alerta sobre a concentração de setores sensíveis nas mãos de poucos grupos econômicos.
Em resumo: a compra da Avibras pelos irmãos Batista pode ser vista, ao mesmo tempo, como uma operação de resgate industrial e como um movimento que exige vigilância institucional. O Brasil pode ganhar com a recuperação de uma empresa estratégica, mas precisa acompanhar de perto quem passa a controlar tecnologias ligadas à defesa nacional.
